terça-feira, 15 de abril de 2008

Fotosensibilidade nº 1


... e um dia tirei os óculos escuros

E então os pus de volta.

O mundo fica menos feio

[através deles.

Pedro Y.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Poema 62 (ou Diablo)

O Diabo levou de todas as coisas
Levou meus papéis alumínio do forno
Meus livros de Shakespeare, meu leite
O Demônio retirou-se ao amanhecer
E retornou à noite de Seu inferno.
No anoitecer terreno Ele voltou
Levou, desta vez, algumas bonecas da infante ao meu lado
Levou meus casacos pretos e os beges
E uns anos da infância desfocada.
Depois da cena repetir-se por dias,
De Ele levar até meus estojos velhos,
Cordas velhas de barcos
(que nunca velejei),
Amores e desenganos,
Roupas antigas, acalantos, sangue
Mosquitos, rutilância, sofás e escovas
Ele me levou a única coisa que restara:
A (mera) ilusão minha de que O Diabo não era eu!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Poema 82

Ele era um menino pequeno e tinha cabelos que gostavam de dar voltas. Ele mudava de lar freqüentemente, e às vezes achava que até mesmo de pais. Mudando com freqüência, mudava de escola também e, assim, desde os cinco anos (que era quando ele conseguia lembrar-se) amava uma menina da sua sala por ano. Amava em cada uma algo estranho, o correr da primeira, o contornar o visto no caderno da segunda, o ajeitar da saia (que dava voltas em seu corpo magro) da terceira - e assim que aos seis aprendeu a ler direitinho, ia ver a avó somente pra abrir suas revistas de horóscopo e ver se seu signo combinava com o de cada uma das meninas. Amou cada uma e levou em si pedaços disso até seus dez anos. Foi quando deitou em cama sem saber como levantar. Nem as revistas de horóscopo da avó puderam salvá-lo, nem a recordação da quarta menina que lhe beijou o rosto após um amigo secreto quando ele lhe deu um estojo de gatinhos. E um belo dia, sua mãe viu ele sair pela janela e o corpo ficar sob os lençóis. Ela inundou a banheira, e só conseguiu sair de lá com a avó do menino (já sem as revistas de signos). Ele se apaixonou pela lua minguante.


(ouço - "Broken Bottle" por Pete Yorn)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A gente

Nós não costumávamos falar bonito, mas amávamos poesia. Nós éramos fruto dado do asfalto. Nós falávamos “a gente”. A gente não costumava se importar com a tonelada de ar do mundo. A gente engolia pessoas. A gente bebia até as três da madrugada e achava pouco ainda, tirava fotos e escolhia as mais bonitas para guardar na gaveta do peito.
A gente andava até quilômetro pra chegar a alguma festa. A gente queria ver gente. A gente queria esquecer. A gente deitava no terror da manhã cinzenta, a mulher chorava, a gente lia gibi meio que para disfarçar e escutava Pedro The Lion. A gente queria passar de europeizado, culto, diferente. A gente comia mesmo era ovo mexido e tomava café pingado. Assumia: a gente gostava mesmo era de canções tristes mesmo negando por tantas horas. Alguns, da gente, se tocaram que bebiam não por gostar, mas para engolir o mundo.
A gente acordava meio torto ainda e, ao ver que ainda era manhã bem cedinho, xingava para si um grito rascante à décima terceira e à décima quarta constelações do zodíaco que pariram a figura da gente e que despertaram o nosso corpo, calor do inferno. A gente queria era morrer às vezes, só para quebrar a rotina.

Pedro Y.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Poema 73


Tem quatro eus pela calçada tramando contra mim;
Tem quatro eus pela calçada suspirando para mim;
Tem quatro eus pela calçada bebendo cachaça para me distrair;
Tem quatro eus pela calçada assombrando minha plenitude;
Tem quatro eus pela calçada e o quinto eu suspira sozinho;
Tem quatro eus pela calçada carregando o que sobrou da noite;
Tem quatro eus pela calçada bambeando esquina a esquina;
Tem quatro eus pela calçada fazendo um plano para matar o quinto eu;
Tem quatro eus pela calçada querendo me matar.

Pedro Yuri

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Wait in the fire pedro... wait in the fire

http://www.youtube.com/watch?v=siNsgbIWhAQ

Talvez o homem que mais tive prazer em conhecer.

"Na Europa, falam dele em sagrados suspiros. Na América, ele é uma misteriosa nota de rodapé. Seus fãs o chamam um anjo. A indústria da música o chama de lenda. Jeff Buckley nasceu em Orange County na Califórnia em 1966 e morreu num trágico afogamento em Memphis no dia 29 de Maio de 1997. Impossível de se classificar, sua voz de 4 oitavas e suas canções de incertas paixões e dor atravessam os mundos do rock, soul, blues, gospel, folk e torch. Ele foi um incrível instrumento da música que continuará a evocar as emoções daqueles que o amam."

(autor desconhecido, tradução minha)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

"Constelação"

Eu e São Pedro
Choramos, juntos, mais uma derrota minha.

Pedro Yuri


*Esse aqui sabe de me entender (e queeeee disco novo aliás):
http://www.youtube.com/watch?v=YRuY49nXgA8
http://www.youtube.com/watch?v=3ruaVMLWYVc

"And everybody knows the way I walk,and knows the way I talk
And knows the way I feel about you
It's all a bunch of shit and there's nothing to do around here
It's totally fucked up,I'm totally fucked up
Wish you were here"
*